domingo, 18 de dezembro de 2011

this made me happy! Jazz & Gaga

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

belém noel



ilustração "Helicônea 3",by renato pantoja

belém noel

onde morávamos, pelo fim de ano, o céu era sempre em preto e branco, a lâmpada da cozinha de vovó waldomira acordava acesa, e eu sabia que era dia de ver hanna&barbera e o elo perdido, de esperar o mabel com ki-suco de uva no meio da manhã, de ansiar pela noite,

vinha do andar de baixo um fumo de peru com castanhas portuguesas, odor de fio d’ovos com torta de bacuri e pão de ló, era meu aquele dia, não pertencia a quem ficava fora de casa, o natal acontecia desde as primeiras horas da véspera, como uma gestação...

waldomira chamava a rapariga e sempre me acudiam a comprar algo na esquina, que menino não tem idade pra atravessar a rua ainda! precisão de algum tempero, ou farinha praquela farofa com miúdos, ou pimenta; lá em casa, todos careciam de ardor,

eu e os primos sabíamos os esconderijos dos presentes, mas acreditávamos severamente no velho noel, o pai natal, não naquele do refrigerante, não, em são nicolau, de quem nos contavam os milagres e tinha até encenação de mistério na paróquia do colégio,

a ceia de waldomira era evento quase ecumênico: todos da família, até as tias insanas, tão carinhosas...num faltavam nem as fatias paridas, tudo em seus lugares,

naquele natal, acordei dia vinte e cinco e fui pra baixo da cama, lá estavam: um vidro de balas de tangerina, uma caixa de música com a canção das gotas que caem cotínuas sobre nossas cabeças, um falcon mergulhador e um livro...

onde morávamos, o céu continuava cinza, waldomira, estafada, mas feliz, meus primos iam brincar na calçada, eu, escondido no porão, lia ou isto ou aquilo e comia todas as balas de tangerina.

(rodrigo maroja barata – out/2010)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

devoção fingida ou e deus criou a mulher?



devoção fingida ou e deus criou a mulher?

ele diz, tragando um cigarro, sem noção do perigo, chega de firulas, diga logo que queres foder com a minha vida!

ela, entre nuvens de fumaça, espero não ter de revestir as paredes de meu quarto depois que te fores embora!

ele, engasgado, se acaso fores embora, levanta antes a âncora que prendeste em meu desejo... desata-me desta camisa de força! me dá um punhado de sertralina!

ela, aliviada, vou pro caribe virar pintora cubista, pois esta história de cubo mágico me deixou sequelada!

ele, no último trago, mesmo (!), prefiro estar sem roupas a desencontrar minha outra pele, de asno?

(rodrigomaroja barata Nov/2010)

sábado, 20 de novembro de 2010

haicai de longe, muito longe




tuas alvas mãos
adulam grisalhas nuvens;
chove sobre nós!

(rodrigomarojabarata nov/2010)

haicai da chuva amante




ao norte de nós,
caminham chuvas esparsas
em direção ao sul

(rodrigomarojabarata nov/2010)

domingo, 17 de outubro de 2010

koop: contemporary scandinavian music


descobri, através de meu amigo e ilustrador, este incrível duo de jazz eletrônico e samples, formado por Magnus Zingmark e Oscar Simonsson, que são suecos, e o cd Koop Islands (2006), com participação dos músicos Yukimi Nagano, Ane Brun, Rob Gallagher e Mikael Sundin fala por si só, ouçam no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=qTTGX27fsA4&has_verified=1

Valeu, joão augusto! é inspirador...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

cinema e os duendes da morte



fiquei em estado de transe, o tempo estava lento e uma névoa pediu abrigo em minha alma. estes foram alguns dos sentimentos suicidas e delirantes que nutri ao ver "Os Famosos e os Duendes da Morte" (2009),de esmir filho. não sou muito de rasgar sedas por um filme. mas o silêncio e as frias paisagens me remeterema um estado de suspensão, de encantamento, onírico, etílico, marijuânico. já estou novamente pregando loas... o filme é uma espécie de manifesto dos tediosos e suicidas, não de párias, colonos riograndenses do sul, numa masmorra sem muros, numa desesperança sem par. filme que leva a crer no isolamento íntimo de seres os quais vivem áridas experiências e nuas passagens pela vida.



esmir filho tece uma narrativa quase sinestésica, gusvansântica (vide o enamoramento e enlevante atmosfera teen fortemente pautada e pontuada ao longo da película), um pouco amniótica, um tanto psicotrópica, com as imagens oníricas que o moleque protagonista tem da menina suicida e com a própria imagem do moleque, de rara beleza e sensualidade. a ponte é um dos sets mais incômodos que vi no cinema nos últimos tempos. ela é fantasmagórica e ao mesmo tempo um memorial aos sem vez, aos que se desnudam frente aos hipócritas. filme importante, urgente, simples, porém impiedoso e na contra-mão dos blockbusters espiritualistas e chatos que estão estourando as bilheterias nacionais. elenco afinado, trilha deliciosa e nostálgica, roteiro sensível. um filme de beleza imensa...

(rodrigo maroja barata - out/2010)